Amir Gujjar

PAKI BASHING

_ Irmão, você tem que aprender a se cuidar. Aqui o negócio é pesado. Estude, faça musculação, qualquer coisa! Mas faça algo para sair daqui, para ser alguém grande, seja um estudioso ou alguém como esse seu Amir Khan que tanto gosta.
_ Isso não vai impedir que aqueles caras voltem a me bater!
_ Claro que não. – Daniel Gujjar dá um longo trago em seu cigarro, enquanto faz uma curva silenciosa em seu táxi. – Mas vai te tornar independente. E com sorte vai te deixar rico e você vai poder largar esse lugar para sempre.
_ Mas eu não quero deixar o pai e mãe! Não quero deixar nossa irmã!
_ Então vai continuar na mesma merda o resto da vida. Trabalhando naquela lojinha até o pai morrer. Casar e encher o mundo de pakis idiotas que nem você. E vão continuar sendo a escória desta porra de cidade.
_ Não fale assim! Você é meu irmão! Porque fala desse jeito!? – O corpo de Amir dói todo quando grita com teu irmão. Seu coração dói mais ainda. – Você devia ser grato por ter teu táxi, por ter um serviço bom, por ter uma família!
Daniel abre um sorriso sem que seu irmão veja.
_ Não seja tonto, irmão! Veja Nadira, nossa irmã: você já viu ela com um dos nossos?
_ Ela nunca namorou!
_ Você anda demais com o pai. Claro que ela já namorou! Eu mesmo a levei até a casa do rapaz. – Daniel observa a cara de horror do irmão com um leve prazer. – E adivinha só! Ele é inglês. E bem de vida. Nossa irmã tem bom gosto... E se você abrir esse seu bocão sobre isso eu mesmo vou te dar uma sova.
Amir silencia.
_ Agora desce. Tem um casal ali querendo uma corrida. Pensa no que te falei e não se mete em encrenca.
A FAMÍLIA
_ Foi Alá quem lhe enviou esses marginais! Assim aprende a não ser tolo! Aquele que não ouve a voz de seu pai cairá em desgraça!
A voz de seu pai ecoava na sala de jantar. Sua irmã, de cabeça baixa, olhava de soslaio para o irmão, sua mãe olhava piedosamente para o garoto.
_ Quantas vezes teremos que sofrer assim? Você não me dá ouvidos! Você não sabe o quanto sua mãe e sua irmã choraram por ti naquela madrugada em que não apareceu em casa. Somente recebemos notícias suas pela manhã. Teu irmão andou por toda cidade te procurando. Ao invés de ficar em casa e descansar para mais um dia de trabalho e estudos, você fugiu para ir numa festa! E ainda voltou embriagado! Pensa que não sei disso? O médico me contou.
O pai quase ergue seu velho braço para esbofetear o garoto. Amir se encolhe. Mas o pai volta a sentar-se na mesa.
_Agora coma.
BIG A. & HUZ
Andando pelas ruas, após a aula, Amir leva em sua bicicleta algumas encomendas que seu pai pediu para entregar pelo bairro. Ao parar em um semáforo, Amir observa os policiais da MET levando para dentro de seu carro dois paquistaneses. Isso tem se tornado muito comum ultimamente, até mesmo ele já levou batida algumas vezes. Precisa sempre andar com seus documentos para provar que é daqui e mesmo assim pode ser que o policia não acredite e o leve até a delegacia para confirmar.
_ Hey, Amir!
Big A. e Huz estão encostados em um Chevrolet novo. Suas roupas e jóias fazem Amir estremecer, ele sabe que esses rapazes são membros de gangue.

_ A gente sabe quem foi que fez isso com você. – Diz Huz, o mais baixo dos dois, olhando de perto a cara toda arrebentada do garoto.
_ E a gente pode te dar uma mão se você quiser uma... vingança. - Big A. dá uma gargalhada quando olha para o franzino Amir.
_ Eu não vou entrar nessa! Olha só o que aconteceu comigo! – Amir levanta seu braço já sem gesso, mas todo costurado. - E eu nem ia conseguir bater neles!
_ Porra, Amir! Tu é paquistanês ou não é? Quantas vezes já não entraram nas nossas lojas e foderam com tudo? E você vai fazer o que correr para a polícia? HAHAHAHAHA. - Big A. dá outra gargalhada.
Amir olha para o carro da MET indo embora com dois rapazes que só estavam passando por ali e sente que mesmo não achando isso certo, os rapazes tem razão.
_ É por isso que a gente existe garoto! Para defender nosso sangue! Esses branquelos só foderam com a gente desde que nossos avós mudaram para cá. Agora a gente tá dando o troco.
Huz, pega um papel do bolso e rabisca um endereço.
_ Olha, Amir. Se você quiser participar da brincadeira de hoje, passa nesse bar aí até as 10 da noite.
_ E... O que vocês vão fazer hoje...?
Nada, só jogar uma sinuca com os rapazes, diz Huz. Vai lá a gente joga um pouco e você esquece dessas merdas, falou?
VINGANÇA
_ Vai, cara! É tua vez acerta ele!
Big A. passa um pedaço de cano para o jovem Amir. Suas mãos estão suando, ele vê o skinhead que lhe chutou a cara estendido no chão, com as mãos no rosto, tremendo.
_ Não enrola, porra! Acaba logo com isso! Vai! Fode com ele!
O medo de Amir vira ódio. Ele segura o cano com duas mãos e acerta o rapaz várias vezes.
_ HAHAHA, Chega rapaz, você já acabou com ele, hoje ele não levanta mais! HAHAHAHHA! Agora vamos sair daqui antes que os METs cheguem!
PAKI PANTHERS
A rua era pouco iluminada, em uma antiga garagem de ônibus entraram num escritório abandonado. A iniciais P.P. estavam picahadas em todos os lugares.
Dentro do pequeno escritório uma televisão, alguns sofás rasgados, um grafite na parede do fundo de um punho fechado escrito PAKIZ RULE. Ele estava numa das bases dos Paki Panthers.
Olhando pela janela, observando os ônibus enferrujados, está um homem careca, alto, fumando um cigarro demoradamente.
Huz se dirige a ele e diz algo que Amir não é capaz de ouvir.
O jovem fica se perguntando o que foi fazer lá, pensa em sair correndo, mas suas pernas estão bambas. Suor gelado escorre pela sua testa.
_ Senta, Amir. – Diz o homem que estava na janela. – Meu nome é Salman. Big A e Huz me disseram que você foi corajoso hoje e acabou com um branquelo que te bateu. Gosto disso. Eu disse para se sentar.
Amir rapidamente puxa uma cadeira e senta em frente a mesa do escritório.
_ O que você fez foi bom, mas isso não é suficiente. Isso só foi uma vingança. E nós precisamos de gente mais forte que isso. Cigarro? – Salman estende um Marlboro para Amir, o garoto trava por um momento, mas então decide pegar um cigarro. Salman acende para ele. Amir engasga e tosse com tudo.
_ Viu? Você não passa de um garoto. A gente vai te transformar num paquistanes de verdade, aquilo que você fez foi uma coragem momentânea. Até quando tu vai ser o garoto dos pacotes? Andando com tua bicicletinha de lá para cá, apanhando pela rua, sem ninguém para te proteger? Tomando batida dos METs que estão pouco se fudendo para gente. Nós somos sua família, Amir. A família que pode te proteger.
Salman dá um demorado trago em seu cigarro, deixando a sala cinzenta com sua fumaça.
_ E então, você está com a gente ou não?
Amir balança fracamente a cabeça em sinal de afirmação.
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"Quem sabe será a velha e sábia Corvinal
A Casa dos que tem a mente sempre alerta
Onde os homens de grande espírito e saber
Sempre encontrarão companheiros seus iguais"
Ravenclaw - Harry Potter.